eu já morri algumas vezes.
Eu já morri algumas vezes. Não teve sangue. Não teve tiro. Não teve barulho de sirene. Não teve comoção. Pessoas chorando. Gritos de dor e desespero. Só teve silêncio e uma visão embaçada pelo choro que caía descontroladamente. De forma tão agressiva que eu não sabia se em algum momento iria parar. Eu já morri algumas vezes e continuei. Continuei sorrindo. Sendo simpático. Indo pro trabalho. Fazendo tudo que tinha que ser feito. Tentando fingir da melhor forma possível. Esconder qualquer arranhão que tinha por dentro. Aliás, dentro era onde acontecia tudo. Sentia como se meus órgãos trabalhassem por livre e espontânea pressão. Uma briga interna entre querer muito ir e querer muito ficar. Talvez fosse cedo demais. Não queria deixar nada pendente, sabe. Talvez já tivesse mesmo o que tinha pra dar. Curta-metragem. Nada grandioso demais pra ser lembrado. Morrer em silêncio é um tanto quanto perigoso. Porque só a gente sabe onde está quebrado e só a gente sabe que não tem como consertar. A vida. A vida é a única que pode fazer isso. Eu? Eu não tenho mais paciência pra me curar. Pareço viver num looping eterno de quedas e cicatrizes e quedas de novo. Sempre tendo que me levantar como se já estivesse acostumado. Sempre tirando lições de histórias tristes. Pra que tanto aprendizado por meio da dor, meu Deus? Histórias felizes não ensinam também? Cadê a parte da montanha-russa que estou lá no topo com os braços levantados e rindo alto? A sensação é que está sempre tudo de cabeça pra baixo. Nada faz sentido. Nada. Até morrer não faria sentido algum agora.
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